O que são S.M.P?

MISSÃO NO DOCUMENTO DE APARECIDA Reflexões a partir do Documento de Aparecida (pe. Luis Mosconi).

1. O evento de Aparecida

O acontecimento da quinta Conferência Episcopal da América Latina (CELAM) em Aparecida (SP), maio de 2007, foi – e continua sendo – um grande presente de Deus à Igreja latino-americana. O resultado superou as expectativas. Vários fatores contribuíram. Antes de tudo a presença do papa Bento XVI. Ele foi recebido carinhosamente pelo povo, tanto em São Paulo como em Aparecida, e o papa ficou muito sensibilizado. Criou-se assim um clima de confiança recíproca, de abertura que repercutiu positivamente na assembléia. Outro fato positivo foi a local, o santuário de Aparecida. A presença animada no santuário de milhares de fiéis fervorosos, cada dia e de todas as idades, impressionou os participantes da Conferência. A convivência dos bispos com o povo nas celebrações, a tenda dos mártires, a romaria alegre e esperançosa das CEBs, da juventude e da pastoral operária, o clima orante e participativo da assembléia, a preocupação mais pastoral do que doutrinal, permitiram que a ação do Espírito Santo fosse eficaz e surpreendente, para alegria geral.

O documento de Aparecida (DA) é o resultado de todo este grande evento. Nas entrelinhas percebe-se a variedade pastoral dos participantes. Notam-se diferenças, limites, algumas falhas, mas o conjunto é animador, revela um forte desejo de comunhão eclesial e de missão. O documento não é chegada, é ponto de partida, é luz para a caminhada; convida a ser criativos e fecundos, a dar corajosos passos para frente.

2. MISSÃO: palavra chave do Documento de Aparecida (DA)

Ao ler o documento, é bom se perguntar: onde mais bate o coração do texto? Onde está a marca mais significativa? Também as Conferências anteriores tiveram suas marcas registradas. A primeira foi no Rio de Janeiro, em 1955, onde se deram os primeiros passos para uma Igreja latino-americana mais autóctone e unida. A segunda foi em Medellín (1968), onde explodiu forte o grito bíblico de libertação, de opção pelos pobres, de uma Igreja a serviço do Reino. Foi aí que deslanchou a caminhada das CEBs. A terceira foi em Puebla (1979), onde cresceram os apelos à comunhão, à participação co-responsável na Igreja, e à defesa da dignidade humana. A quarta foi em Santo Domingo (1992), onde muito se insistiu sobre a inculturação e o protagonismo dos leigos.

É opinião comum que a palavra chave de Aparecida é MISSÃO. Já o lema da Conferência o diz: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’ Ele nossos povos tenham vida”. O método VER-JULGAR-AGIR atravessa o documento inteiro, mesmo que seja de maneira leve. O VER ocupa os dois primeiros capítulos (I-II). É um ver a realidade, com coração de discípulo missionário. O JULGAR é marcado por três eixos que explicitam a experiência cristã: a) O encontro pessoal com Jesus Cristo que nos torna discípulos missionários, fonte de grande alegria e paz (capítulos III-IV); b) A vivência eclesial, onde todos são acolhidos e valorizados como sujeitos eclesiais (capítulo V); c) O processo formativo permanente. É para gerar convicções fortes e corajosas (capítulo VI). O AGIR que vem em seguida, é missão pra valer, fecunda e permanente; ela atinge de cheio a realidade sócio-econômica, política, cultural, religiosa do Continente (capítulos VII-X).

Missão e missionários marcam o texto inteiro. O documento está organizado em 554 parágrafos. A palavra Missão aparece explicitamente em cerca de 100 parágrafos, as palavras ‘discípulos missionários’ e ‘missionários’ aparecem mais de trezentas vezes. Estas palavras iluminam também todos os outros parágrafos do documento. Elas são o paradigma, a referência, o fio condutor do documento.

Vale a pena saborear, meditar, interiorizar essas palavras, não somente de vez em quando, mas no cotidiano da vida; e partilhá-las nas comunidades, entre animadores (as) e agentes pastorais. Elas estão espalhadas ao longo de todo o documento, quais pérolas preciosas, que é preciso saber cuidar e guardar. Elas são portadoras de esperança, de energias novas, de transformação e libertação em todos os níveis. Ao meditar frase por frase é bom se perguntar, pessoalmente e/ ou em grupos: o que está me/ nos dizendo? Quais luzes e recados? Como vivenciá-las na minha/ nossa comunidade eclesial e na sociedade em que vivemos?

A seguir algumas frases do Documento que falam de Missão:

3. MISSÃO em sentido amplo.

1) “Assumimos o compromisso de uma grande missão em todo o Continente” (DA 362).

2) “A missão continental procurará colocar a Igreja em estado permanente de missão” (DA 551).

3) “Hoje, toda a Igreja na América Latina e no Caribe quer colocar-se em estado de missão” (DA 213).

4) “A Igreja necessita de forte comoção que a impeça de se instalar na comodidade” (DA 362).

5) “Esperamos em novo Pentecostes, uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança” (DA 362).

6) “A conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária” (DA 370).

7) “Precisamos de uma evangelização muito mais missionária, em diálogo com todos os cristãos e a serviço de todos os homens” (DA 13).

8) “Missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã” (DA 144).

9) “A Igreja peregrina é missionária por natureza, porque tem sua origem na missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai” (PA 347).

10) “A missão é a razão de ser da Igreja, define sua identidade mais profunda” (DA 373).

11) “A missão não se limita a um programa ou projeto, mas é compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo” (DA 145).

12) “A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais” (DA 11).

13) “A Igreja deve cumprir sua missão seguindo os passos de Jesus e adotando suas atitudes” (DA 31, cita Mt 9,35-36).

4. PARÓQUIAS em missão

<!–[if !supportLists]–>1) <!–[endif]–>“As paróquias são células vivas da Igreja… São chamadas a ser casas e escolas de comunhão” (DA 170).

<!–[if !supportLists]–>2) <!–[endif]–>“Todas as nossas paróquias se tornem missionárias” (DA 173)

<!–[if !supportLists]–>3) <!–[endif]–>“A renovação missionária das paróquias se impõe tanto nas cidades como no mundo rural” (DA 173)

<!–[if !supportLists]–>4) <!–[endif]–>“A renovação missionária das paróquias exige de nós imaginação e criatividade para chegar às multidões” (DA 173).

<!–[if !supportLists]–>5) <!–[endif]–>“Os melhores esforços das paróquias devem estar na convocação e na formação de leigos missionários” (DA 174)

<!–[if !supportLists]–>6) <!–[endif]–>“Todos os membros da comunidade paroquial são responsáveis pela evangelização dos homens e mulheres em cada ambiente” (DA 171).

<!–[if !supportLists]–>7) <!–[endif]–>“A renovação das paróquias exige a reformulação de suas estruturas, para que ela seja uma rede de comunidades e grupos, capazes de se articular conseguindo que seus membros se sintam realmente discípulos e missionários de Jesus Cristo em comunhão” (DA 172).

<!–[if !supportLists]–>8) <!–[endif]–>“A imensa maioria dos católicos de nosso continente vive sob o flagelo da pobreza… A paróquia tem a maravilhosa ocasião de responder às grandes necessidades de nossos povos. Para isso tem que seguir o caminho de Jesus e chegar a ser a boa samaritana como Ele. Cada paróquia deve chegar a concretizar em sinais solidários seu compromisso social nos diversos meios em que se move, com toda a ‘imaginação da caridade’” (DA 176)

<!–[if !supportLists]–>9) <!–[endif]–>“A paróquia chegará a ser comunidade de comunidades’” (DA 309, citando Santo Domingo 58).

<!–[if !supportLists]–>10) <!–[endif]–>“Uma paróquia, comunidade de discípulos missionários, requer organismos que superem qualquer tipo de burocracia. Os Conselhos Pastorais Paroquiais terão de estar formados por discípulos missionários constantemente preocupados em chegar a todos” (DA 203).

5. COMUNIDADES em missão

<!–[if !supportLists]–>1)      <!–[endif]–>“As CEBs (Comunidades eclesiais de base) têm sido escolas que têm ajudado a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionários do Senhor”. (DA 178).

<!–[if !supportLists]–>2)      <!–[endif]–>“As CEBs são expressão visível da opção preferencial pelos pobres. São fonte e semente de variados serviços e ministérios a favor da vida na sociedade e na Igreja” (DA 179).

<!–[if !supportLists]–>3) <!–[endif]–>“É preciso reanimar os processos de formação de pequenas comunidades no Continente” (DA 310).

<!–[if !supportLists]–>4) <!–[endif]–>“A conversão pastoral requer que as comunidades eclesiais sejam comunidades de discípulos missionários ao redor de Jesus Cristo, Mestre e Pastor. Daí nasce a atitude de abertura, diálogo e disponibilidade para promover a co-responsabilidade e participação efetiva de todos os fiéis na vida das comunidades cristãs” (DA 368).

<!–[if !supportLists]–>5) <!–[endif]–>“Enraizadas no coração do mundo, as CEBs são espaços privilegiados para a vivência comunitária da fé, mananciais de fraternidade e de solidariedade, alternativa à sociedade atual fundada no egoísmo e na concorrência brutal” (texto aprovado pela assembléia, tirado do documento oficial).

<!–[if !supportLists]–>6) <!–[endif]–>“Queremos decididamente reafirmar e dar novo impulso à vida e à missão profética e santificadora das CEBs, no seguimento missionário de Jesus. Elas têm sido uma das grandes manifestações do Espírito na América Latina e no Caribe depois do Vaticano II”(texto aprovado pela assembléia, tirado do documento oficial).

<!–[if !supportLists]–>7) <!–[endif]–>“Depois do caminho feito até agora, com avanços e dificuldades, é o momento de uma profunda renovação desta rica experiência eclesial em nosso Continente, para que não percam sua eficácia missionária e sim a melhorem e a aumentem diante das continuas novas exigências da época” (texto aprovado pela assembléia, tirado do documento oficial).

6. TODOS OS CRISTÃOS: discípulos missionários de Jesus Cristo.

<!–[if !supportLists]–>1)      <!–[endif]–>“Somos missionários para proclamar o Evangelho de Jesus Cristo e, nele, a boa nova da dignidade humana, da vida, da família, do trabalho, da ciência e da solidariedade com a criação” (DA 103).

<!–[if !supportLists]–>2)      <!–[endif]–>“Todo discípulo de Jesus Cristo é missionário” (DA 144).

<!–[if !supportLists]–>3)      <!–[endif]–>“Os discípulos por essência são também missionários, em virtude do Batismo e da Confirmação” (DA 377).

7. PRESBÍTEROS E PÁROCOS em Missão

1) “O presbítero, à imagem do Bom Pastor, é chamado a ser homem de misericórdia e compaixão, próximo a seu povo e servidor de todos, particularmente dos que sofrem grandes necessidades” (DA 198).

2) “O povo de Deus sente necessidade de presbíteros – discípulos: que tenham profunda experiência de Deus, configurados com o coração do Bom Pastor; de presbíteros – missionários: movidos pela caridade pastoral que os leve a cuidar do rebanho a eles confiado e a procurar os mais distantes, atentos às necessidades dos mais pobres, comprometidos na defesa dos direitos dos mais fracos, e promotores da cultura da solidariedade”. Também de presbíteros cheios de misericórdia”(DA 199).

<!–[if !supportLists]–>3)      <!–[endif]–>“A renovação da paróquia exige atitudes novas dos párocos e dos sacerdotes que estão a serviço dela” (DA 201)

<!–[if !supportLists]–>4)      <!–[endif]–>“A primeira exigência é que o pároco seja autêntico discípulo de Jesus Cristo… Mas, ao mesmo tempo, deve ser ardoroso missionário que vive o constante desejo de buscar os afastados e não se contenta com a simples administração” (DA 201).

<!–[if !supportLists]–>5)      <!–[endif]–>“Os párocos sejam promotores e animadores da diversidade missionária… Requer-se imaginação, exigindo novos serviços e ministérios” (DA 202).

8. BISPOS em missão

<!–[if !supportLists]–>1)      <!–[endif]–>“Os bispos, junto com todos os fiéis e em virtude do batismo, somos, antes de qualquer coisa, discípulos e membros do Povo de Deus. Queremos seguir a Jesus, Mestre de vida e verdade” (DA 186).

<!–[if !supportLists]–>2)      <!–[endif]–>“Os bispos têm de ser testemunhas próximas e alegres de Jesus Cristo, Bom Pastor” (DA 187).

<!–[if !supportLists]–>3)      <!–[endif]–>“Os bispos somos chamados a ‘fazer da Igreja uma casa e escola de comunhão’” (DA 188).

9. Missão a serviço da vida

1) “O discípulo missionário há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores” (DA 147).

2) “As condições de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e dor, contradizem a esse projeto do Pai e desafiam os cristãos a maior compromisso a favor da cultura da vida”. O reino de vida que Cristo veio trazer é incompatível com essas situações desumanas”(DA 358).

3) “A misericórdia sempre será necessária, mas não deve contribuir para criar círculos viciosos que sejam funcionais para um sistema econômico iníquo”. Requer-se que as obras de misericórdia sejam acompanhadas pela busca de verdadeira justiça social”(DA 385).

4) “Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos pobres, inclusive até o martírio” (DA 396).

5) “Solicita-se dedicarmos tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas, ou anos de nossa vida e procurando, a partir deles, a transformação de sua situação” (DA 397).

6) “Assumindo com nova força essa opção pelos pobres, manifestamos que todo processo evangelizador envolve a promoção humana e a autêntica libertação, ‘sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade’” (DA 399).

7) “Os discípulos e missionários de Cristo devem iluminar com a luz do Evangelho todos os âmbitos da vida social”. A opção preferencial pelos pobres, de raiz evangélica, exige atenção pastoral voltada aos construtores da sociedade” (DA 501)

São frases que mexem e sacodem, destinadas a provocar um grande ‘vendaval do Espírito’, como aconteceu na primeira comunidade cristã de Jerusalém, no dia de Pentecostes (At 2,1-13). Não há mais dúvida: Aparecida convida toda a Igreja do Continente a orientar-se, com decisão e urgência, para a missão. Tudo mesmo: bens, estruturas, recursos, pessoas, pastorais, grupos, comunidades, paróquias, dioceses, movimentos eclesiais, centros de formação, seminários, cursos, institutos de teologia; padres, bispos, leigos, seminaristas, religiosos. É uma tarefa gigantesca e apaixonante.

Todo o povo de Deus é chamado a ser discípulo missionário de Jesus Cristo, cada um no serviço específico que escolheu ou que lhe foi confiado (leigos, padres, bispos, operários, lavradores, empresários…). Discipulado e missão conferem identidade e comunhão na diversidade dos serviços específicos.

10. Missão verdadeira

Com tanta insistência sobre ‘missão’, o perigo é ‘fazer missão’ de qualquer jeito, é cair numa missão vaga, genérica, dispersiva, sem objetivos claros e verdadeiros. O documento quer evitar esses perigos e aponta orientações. Vamos ao texto com as seguintes perguntas: Por quais motivos ir à Missão? Quais os conteúdos? Quais os objetivos? Quem vai assumir a Missão?

Os porquês da Missão. A motivação principal está na comunhão trinitária: “A Igreja peregrina é missionária por natureza, porque tem sua origem na missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai” (DA 347, citando o documento Ad Gentes, capítulo 2, do Concilio Vaticano 2º). O Deus revelado na Bíblia é Deus-Amor (1Jo 4,8.16), e onde há amor, há missão; portanto, Deus é Missão. Nós participamos da natureza divina (2Pd 1,4), somos filhos e filhas da Trindade Santa; herdamos a missão da Trindade. Um segundo motivo da missão é a situação do mundo, do planeta Terra. O mal está no mundo, destruindo relações de fraternidade e de paz, trazendo divisão e opressão, ferindo e destruindo o Planeta. O Documento faz uma análise detalhada dos males do mundo (DA 43-97). Diante de tudo isso, não podemos ficar indiferentes. Enquanto houver algo errado em qualquer parte do mundo, é a hora da missão. Um terceiro motivo que Aparecida lembra é a vida interna da Igreja: enfraquecimento da vida cristã, escasso acompanhamento aos fiéis leigos em suas tarefas de serviço à sociedade, despreparo da Igreja frente aos desafios da pós-modernidade, migração de católicos para outras Igrejas e grupos religiosos, católicos batizados não suficientemente evangelizados, vítimas de um mundo secularizado, onde a tendência é relativizar valores e fazer o que mais satisfaz no momento (DA 100, 293, 185, 177, 479).

Portanto, a Missão “não é uma tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã” (DA 144). Ela é uma necessidade, uma urgência permanente: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16).

Os conteúdos e objetivos da Missão. Nós não os inventamos, nós os herdamos da Missão de Deus, plenamente revelada na vida e na prática de Jesus de Nazaré. Eles estão presentes também nos anseios mais profundos e mais verdadeiros da natureza humana. Devemos saber redescobri-los e atualizá-los. O documento de Aparecida lembra-os com insistência:

a) participar da vida trinitária através do seguimento a Jesus de Nazaré (DA 129, 131).

b) fazer discípulos de Jesus todos os povos (DA 364). Fazer de cada cristão um discípulo missionário (DA 362).

c) proclamar o Evangelho de Jesus Cristo e, n´Ele, a boa nova da dignidade humana, da vida, da família, do trabalho, da ciência e da solidariedade com a criação (DA 103).

d) anunciar o Evangelho do Reino a todas as nações (DA 144).

Isso significa trabalhar pela justiça social (DA 384), pela dignidade humana (DA 387). É fazer decididamente a opção preferencial pelos pobres e excluídos (DA 391). É compromisso pela promoção humana integral (DA 399-405), pela globalização da solidariedade e justiça internacional (DA 406). É promover uma valiosa ação renovadora das paróquias e das dioceses, para que sejam missionárias, e se transformem em uma rede de pequenas comunidades eclesiais (DA 170, 172, 173). Que sejam “comunidades de discípulos missionários ao redor de Jesus Cristo, Mestre e Pastor” (DA 368). O modelo referencial está nas primeiras comunidades cristãs (DA 369).

Os sujeitos da missão. São todos os batizados. De fato, ser batizado é ser cristão e ser cristão significa tornar-se discípulo de Jesus Cristo: “Todo discípulo é missionário” (DA 144). O ser missionário faz parte da natureza do ser cristão: “Discipulado e missão são como as duas faces da mesma moeda” (DA 146). Não dá pra ser discípulo sem ser missionário e vice-versa. O discipulado e a missão são a marca registrada do documento de Aparecida.

Os destinatários da missão. Todos os povos, desde as pessoas que moram perto até os que vivem nos países mais distantes: “A missão do anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo tem destinação universal” (DA 380). A questão não é só geográfica, a missão “quer atingir todos os campos sócio-culturais, sobretudo os corações” (DA 375). “A renovação missionária das paróquias está exigindo de nós imaginação e criatividade para chegar às multidões que desejam o Evangelho de Jesus Cristo. Particularmente no mundo urbano” (DA 173). Para isso é preciso que haja “discípulos missionários sem fronteiras, dispostos a ir ‘à outra margem’” (DA 376). “Somos Igrejas pobres, mas ‘devemos dar a partir de nossa pobreza e a partir da alegria de nossa fé”’(DA 379, citando Puebla).

11. Como viabilizar a Missão

Que fazer para que, de verdade, a Missão seja o fio condutor de toda a pastoral latino-americana? Está aí o grande desafio. O documento revela um grande entusiasmo pela missão, será preciso, porém, muita decisão e clareza, mudanças estruturais na vida da Igreja, para que a missão aconteça, de verdade, no meio e a serviço das multidões.

Há experiências significativas em andamento que ajudam a dar passos. Mas é bom lembrar: a missão convida a trilhar caminhos capazes de responder aos grandes anseios da humanidade. Missão não é toque de mágica, não é mercadoria que se compra no supermercado, nem remédio que alguma farmácia vende.

Missão é dom, é graça, é tarefa. Ela necessita de convicções firmes, de motivações audaciosas, que brotam de uma profunda experiência mística com a Trindade Santa. Mística e Missão são inseparáveis. Mística gera liberdade, criatividade, fecundidade, ousadia. É de tudo isso que a Missão precisa para ela acontecer

12. Missão Continental e Santas Missões Populares (SMP)

A Conferência de Aparecida assumiu “o compromisso de uma grande missão em todo o Continente, que de nós exigirá aprofundar e enriquecer todas as razões e motivações que permitam converter cada cristão em discípulo missionário” (DA 362). Missão Continental não quer dizer proselitismo, e nem concorrência com outras Igrejas e grupos religiosos. É testemunhar hoje a única missão de Jesus de Nazaré.

É bom insistir: o que vale é a Missão de Jesus (DA 143). Ela está em primeiro lugar, o resto é instrumento, serviço. A razão de existir da Igreja é concretizar a missão de Jesus nas situações e desafios de hoje. A Igreja existe em função da missão de Jesus, ela é algo relativo, um relativo necessário, mas sempre relativo. Tudo o que é instrumento deve sempre estar em processo de revisão, de avaliação, de conversão permanente.

A Missão Continental exige fidelidade e criatividade, unidade na diversidade, um amor compassivo e solidário com os pobres do Continente, uma consciência crítica e ativa, uma grande capacidade ao diálogo e ao serviço fraterno. Convida as Igrejas locais a se colocarem em estado de missão permanente. Necessita de instrumentos capazes, de objetivos claros, de metodologia eficaz e envolvente. Deverá fazer crescer entre todos os católicos a espiritualidade do seguimento de Jesus, deverá transformar cada vez mais as dioceses e paróquias latino-americanas em “comunidade de comunidades”, que sejam ministeriais, participativas, solidárias, missionárias, assumidas e conduzidas por missionários leigos (as).

Entre os instrumentos eficazes indicamos as Santas Missões Populares (SMP). Há várias experiências de SMP, sinal positivo de fecundidade pastoral. Aqui sugerimos uma determinada experiência, que nasceu entre leigos e agentes pastorais, 20 anos atrás, no Estado do Pará (Brasil). A experiência foi crescendo, se espalhando e se firmando cada vez mais. Já envolveu dezenas de milhares de missionários (as) leigos (as). Inúmeras comunidades renasceram, tantas outras surgiram. O compromisso em favor da ética, da cidadania, da justiça e da solidariedade ao lado dos mais pobres e excluídos avançou. A espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo está mudando a vida de muitas e muitas pessoas.

Nós das SMP ficamos muito alegres com as propostas de Aparecida. Elas vieram confirmar e reforçar uma caminhada missionária de 20 anos. Pelas experiências, cremos que estas SMP, se bem vividas nos seus conteúdos, motivações, objetivos, metodologia e espiritualidade, podem dar uma humilde e preciosa contribuição ao crescimento da missão de Jesus em todo o Continente, razão principal de todo trabalho pastoral. As SMP querem fazer parte deste grande mutirão missionário no Continente.

Terão que ser SMP enraizadas na Missão de Jesus de Nazaré e das primeiras equipes missionárias, como as do apóstolo Paulo. Terão que estar imbuídas de profunda espiritualidade, de forte consciência crítica sobre os desafios do mundo de hoje; de fidelidade e criatividade; de obediência à vontade do Pai e de liberdade frente às estruturas do mundo; de paciência impaciente e de impaciência paciente (Paulo Freire); de ternura e coragem profética; de participação e comunhão.

Terão que ser assumidas por leigos e leigas, reconhecidos como sujeitos eclesiais co-responsáveis, preparados, amados e enviados pela Igreja. Para testemunhar a missão de Jesus de Nazaré em todo o Continente, nas grandes periferias, nos centros urbanos, nas aldeias indígenas, nos povos afro, na beira dos rios, nas florestas, nos povoados das montanhas, nos interiores extensos, nos centros de decisão, nas universidades, a Igreja necessita de um grande número de missionários/ as.

A experiência sugere, na América latina, a presença, dinâmica e urgente, de três milhões de missionários e missionárias, para os próximos cinco anos. Terão que ser missionários (as) possuídos pelo mesmo espírito de Jesus de Nazaré.

Somente sonho? Cremos que não. Trata-se de fazer renascer, continuamente, a esperança concreta de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais humana, sinal visível, ainda que pequeno, da glória do Reino de Deus. Esta é a razão de ser e de existir da Igreja.

Portanto, mãos à obra! Sem esquecer a recomendação de Jesus dirigida aos primeiros discípulos missionários: “Quando vocês tiverem feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos simples servos; fizemos o que devíamos fazer”’ (Lc 17,10).

Pe. Luis Mosconi

e-mail: mosconi@amazon.com.br

(Para um maior conhecimento desta experiência, ver: Santas Missões Populares, Luis Mosconi. 20ª edição. Paulinas, São Paulo, Brasil, 2008).
Generally speaking there are no set rules on how much you can actually borrow from custom dissertation writing service https://dissertationowl.com/ existing works.